segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Vocação e Frustração



Queremos mesmo integrar nossa fé em cada aspecto da vida, incluindo a profissão. Queremos ser pessoas completas, íntegras (a palavra provém do termo latino que significa "tudo"). Não faz muito tempo, conheci um novo convertido que se torturava em aplicar a fé ao seu trabalho como professor de arte.
"Quero que toda a minha vida reflita minha relação com Deus", disse-me. "Não quero que minha fé fique em um compartimento e minha arte em outra."
Todos concordamos com Dorothy Sayers que disse que se a religião não fala com nossa vida de trabalho, então não tem nada a dizer sobre o que fazemos a maior parte do tempo; portanto, não admira que as pessoas digam que a religião é irrelevante! "Como alguém pode permanecer interessado numa religião que não se interessa com 90% da vida?"
No dualismo secular/sagrado, o trabalho comum é denegrido, ao passo que o trabalho na igreja é exaltado como mais valioso. No livro Roaring Latnbs (Cordeiros que Balem), Bob Briner descreve seus dias de estudante em uma faculdade cristã, onde a suposição tácita referia-se à idéia de que o único modo de realmente servir a Deus era num trabalho cristão em tempo integral. Já sabendo que desejava uma profissão na administração esportiva, Briner, escreve:"Sentia-me como seu eu fosse um tipo de cidadão estudantil de segunda classe. Meus colegas que se preparavam para o ministério pastoral, ou serviço missionário, eram tratados como se estivessem fazendo o verdadeiro trabalho da igreja. Os demais eram os coadjuvantes".
A mensagem subjacente era que as pessoas em profissões comuns podem contribuir com suas orações e apoio financeiro; nada mais. "Quase nada em minha igreja ou experiências na faculdade apresentava a possibilidade de uma vida cristã dinâmica e envolvida fora do ministério", conclui Briner. "Ouvimos falar de ser sal e luz, mas ninguém nos diz como ser isso." Ele recebia apoio insincero à idéia de dedicar seu trabalho a Deus, mas o que tudo isso parecia significar era: Faça o melhor que puder e não cometa nenhum pecado hediondo.
O mesmo dualismo secular/sagrado quase acabou com os talentos criativos dos fundadores de vídeos excentricamente engraçados, conhecidos nos Estados Unidos. Phil Vischer diz que sempre soube que queria fazer cinema, mas "a mensagem implícita que recebi enquanto crescia era que o ministério de tempo integral era o único serviço cristão válido. Cristãos jovens deviam almejar ser ministros ou missionários". Assim, com submissão, fez as malas e foi para a faculdade de teologia estudar, a fim de ingressar no ministério.
No entanto, quanto mais via a influência tremenda que os filmes exerciam nas crianças, mais se conscientizava de que era importante produzir filmes de alta qualidade. Por fim, resolveu: "Imaginei que Deus poderia usar um ou dois cineastas, a despeito do que as pessoas dissessem". Desistindo da faculdade de teologia, ele e seu amigo, Mike Nawrocki, abriram uma produtora. Enquanto seus ex-colegas se transformavam em líderes de mocidade e pastores, eles se transformaram nas vozes de dois personagens famosos:Tomate Bob e Pepino Larry. Os vídeos são muito populares por suas mensagens bíblicas e humor ardiloso. Se estes dois desistentes de faculdade de teologia não tivessem por livre e espontânea vontade divergido da mentalidade secular/sagrado e não tivessem decidido que os cristãos têm uma chamada válida no campo da produção de filmes, talvez seus talentos nunca teriam sido úteis para a igreja.Todo membro do Corpo de Cristo tem um talento para o benefício do todo, e quando esses dons são anulados, todos perdemos.
A influência da divisão secular/sagrado é menos surpreendente quando percebemos que muitos pastores e professores a assimilam. Um superintendente escolar me contou que a maioria dos pedagogos define o "professor cristão" estritamente em termos de comportamento pessoal: coisas como dar um bom exemplo e mostrar preocupação pelos alunos. Quase nenhum o define em termos de transmitir uma cosmovisão bíblica nas matérias que ensinam (literatura, ciência, estudos sociais ou artes). Em outras palavras, eles se preocupam em ser cristão no trabalho, mas não pensam a respeito de ter uma estrutura bíblica sobre o trabalho.
Em muitas escolas cristãs, a estratégia típica é inserir em sala de aula certos elementos "religiosos" estreitamente definidos, como oração e memorização da Bíblia, e depois ensinar as mesmas coisas que as escolas seculares. O currículo apenas estende uma camada de devoção espiritual em cima da matéria escolar, como algo supérfluo, enquanto o próprio conteúdo permanece o mesmo.


Trecho do livro de PEARCY, Nancy. Verdade Absoluta: Libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural. Tradução de Luis Aron. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. 526 p. (p. 38-40)

Um comentário:

Alexandre Lettnin disse...

Bom artigo!
Gostei de ser linkado pela imagem! Agora tenho outro blog, mais ilustrativo: www.alexlettnin.blogspot.com